terça-feira, 19 de abril de 2016

SKATERBOY

há uma vontade uma ideia de vida já sabotada a rolar por dentro de nós em quatro rodas bem alinhadas num desafio mais ou menos arriscado a descer rampa abaixo brrrrrr! a saber que quanto maior é o ruído maior é a certeza de chegar ao topo da rampa a outra mesmo mesmo à nossa frente porque só assim a plenitude o êxtase em forma de pernas imponentemente maciças a transbordar a sua presença numa fluidez fluvial que te atravessa ao meio abre-te pelo umbigo e explica-te como funcionam os loops do Cesariny entre uma passa e outra no meio cigarro mas para além disso mostra-te - sem merdas - que a descida vale a pena depende é como te mandas de cabeça.
18 Abril 2016 : 19.19

terça-feira, 4 de agosto de 2015

é que na inevitabilidade de todos os minutos
tenho-te
só a ti
a destilar venenosas lembranças
que de tão doces
ainda alastram
nos lençóis da tua ausência.
4 Agosto 2015 : 00.59

quinta-feira, 28 de maio de 2015

indicações

ao fundo há a ponte
e o rio debaixo dela
e o carrinho reluzente
a andar por cima dela
só depois o casario
a descer a encosta em avalanche
e os prédio
semeados pelo caos
e a brotarem como dentes   diamantes
e por cima uma neblina
a ascender em poeira poluente
e umas gruas insinuadas
e as antenas
nada de gente
só os telhados
com as chaminés em erecção
e todas as janelas a olharem para o chão
nada mais alto
só a copa das árvores
mais ousadas
as mais atrevidas
em rebelião com as altas fachadas
monumentais guardiães
de estórias e histórias
das camas mal feitas
as mal amadas
próximas demais
demasiado usuais
quentes, infernais
até repelir o abraço
o mais sincero
o único que aquece mais que o calor
o verdadeiro reagente
para a ilusão
ou o amor.

28 Maio 2015 : 20.47

domingo, 3 de maio de 2015

há um muro por detrás da pele, que teima em espessar ao mínimo golpe. os meus órgãos reorganizam-se, condicionados a um espaço onde só cabe nevoeiro, que nem chuva sabe ser. mas quem é que decidiu automatizar-me assim? que deus, por mais cruel, não me soube dar outra voz aos olhos para que a explosão seja para fora? quanta ausência na vontade e quanta vontade de me ausentar. de que me servem as viagens para dentro de mim se tudo o que encontro são pinhais cerrados a condensar partículas de palavras que me impedi de dizer?

envelheci não sei bem quando e o Tempo perdeu a noção que se rege pelos mesmos segundos de antes. acelerou e não tenho onde apresentar uma reclamação por escrito. ninguém me avisou que as metamorfoses não são só visíveis e que as impurezas que temos crescem em aguçados cristais por fora da pele e impedem o abraço demorado.
como odeio estes dias em que não escolho estar sozinho e tudo o que tenho é uma viagem pela frente rumo ao destino que nunca escolhi.

3 Maio 2015 : 21.07

quinta-feira, 5 de março de 2015

fechei os olhos para ver melhor

um

há uma nuvem mais peganhenta que vem engolindo a cidade e alastram-se os incêndios por dentro de nós, reacção mais que óbvia à carência de calor.
e ficam só os silêncios na ponta da língua, reacção mais que obvia à ausência de uma vontade maior, mais forte, de rebentar e fazer do rio uma orquestra em chamas, a evidência da mão mais negligente a trocar pelo carinho de apenas um beijinho no rosto.
nem o sino toca por quem morre sem dentes, sem sentir a fálica delícia de ser Homem num corpo em piloto automático. só o cheiro a saliva na ponta dos dedos.
e do longe vem um ruído, um desfazer de sons, que nem sei se é o vento, ou o mar, ou o chão da cidade num lamento mais bruto.
glória às caninas construções de merda a celebrar a benção mais blasfémica sobre o céu da cidade. ó sagrados rituais do defecar, mostra-nos que histórias se falam na outra ponta da boca - uma boca também. só assim se diferencia o verdadeiro perfume a seduzir, a aproximar.
uma luz azul e muitas luzes de uma outra cor, todas iguais, diferentes de azul. até a blusa era azul. que mal tem gostar de azul, bebé?
implosões, milhares, muitas implosões a desabar com a paisagem por dentro de mim. que cor terá a dúvida e de que é feito o pó dos seus destroços para lá dos ossos? e a que cheira a hesitação até chegar às coxas?
uma sirene a rasgar o crepúsculo e a acender a luz mais definitiva da noite. e nem um sino, ou bater de talheres ou um arremessar de chaves. apenas as árvores numa vênia perene a carpir o luto de mais uma noite nadamorta. Piiiiiiiiiiiii.
15 outubro 2014 : 19.22
Graça

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

as pessoas correram à praia
treparam rochas
invadiram o mar
por uma partícula que fosse daquela oferenda divinal
que verdadeira maravilha
que explosão celestial
a rebentar por detrás dos navios
encalhados de êxtase

do céu
pendiam castelos de claras
com a enigmática suspensão quando se vira a tigela ao contrário
a ruborescer
inflamados no tom da ameixa acabada de trincar
e a água
uníssona
num só tom de marulhar azul
a estender-se costa fora
no seu marmóreo esplendor

mas nada
nada conseguiu abrandar aqueles segundos de ouro e veludo.

e foi a descer
devagar
toda essa orquestra de luz e brilho e cor
atravessando Nut
desde os olhos da manhã
ao entre-coxas de Héspera
um vislumbre de dia
um crepúsculo mais peganhento
que se demora no seu entardecer
arrastando-se para lá do Mar
de onde todos os sonhos são feitos
sob os olhos de Nyx, a Mãe.

31 dezembro 2014 : 19.14

sábado, 27 de dezembro de 2014

A revelação.

é no momento mais silente da trajectória da Lua
quando os insectos deixam de ser murmuro e sibilos de prata
que o monstro abre as suas asas de noite
e deixa escorrer infinitas línguas aguçadas
a pingar de doce e de mel
e a prender de perto peganhentas estórias vermelhas
a infectar-me dos olhos às mãos
todas as palavras
por menos letras que o seu peso possa ter

é nesse preciso momento em que o segundo demora a avançar
que o sinto a descolar-se de dentro da pele
a ganhar corpo por dentro do meu
e a ser gente mais que eu
a ditar-me penitências desejadas
com os joelhos rubros de prazer
e a boca cheia de ausentes palavras de amor
só sussurros a arranharem-me a garganta
e a uma memória de mim

é nesse preciso momento em que o meu nome se lê de outra forma
que do meu corpo irrompem mais braços
e as costas segregam invisíveis perfumes
sob a vigília atenta de milhares de olhos com dentes
a cobrirem-me de uma cobiça tão leve
e a cristalizarem-me as lágrimas tão pesadas
a envenenarem-me o juízo
e a fazer da ilusão uma vontade deliciosa
e impossível de aguentar

mas nos lábios sempre uma miragem de mar
um brilho   uma promessa
porque o peito é quilha forte - dizem -
não foi feito para afundar.

27 dezembro 2014 : 16.53

mas que tristeza da igreja à praia
mas que tristeza no colar das senhoras de luto e de castanho
mas que tristeza nas esplanadas da avenida da secundária
mas que tristeza por dentro e por fora dos carros sem pressa
mas que tristeza nos olhos nunca mais vigilantes dos senhores da rotunda
mas que tristeza nos jardins a florir de crianças
mas que tristeza no choro do sino ao longe
mas que tristeza no farol por acender
mas que tristeza nos assuntos e nas conversas nunca diferentes
mas que tristeza no abraço dos amigos sempre iguais
mas que tristeza na estranheza do seu calor
mas que tristeza a inundar esta terra
quanta tristeza
tanta tristeza a desaguar no Mar.

27 dezembro 2014 : 16.24

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

uma asa adormece no asfalto
só uma       e a mais pesada
a prometer-lhe o sonho
de um dia ser céu.

27 Agosto 2014 : 20.09

Há segredos que temos até de nós próprios. Segredos-segredo, o maior de todos. E esconde-se atrás do medo, que vive encostado às nossas costas. São portanto matérias diferentes, com iguais pesos incisivos e agudos. Serve-se O segredo do medo por ser medricas, que tem medo até de se mostrar. São poucos os de nós que o viram. E que visão, que grande delírio, tão mais real que a sobriedade! É perceber como somos para lá dos ossos e órgãos e sangue encharcado de moléculas a estruturar-nos. É saber mais, para além do que somos feitos: é saber o que somos e como é que funcionam as vontades que movem toda esta fortaleza de pele e carne viva, de dentro para fora e vice-versa. De que são feitas essas vontades para além da corrente eléctrica a violar-nos os neurónios? Não seriamos melhores eus se soubéssemos controlar toda a combustão que nos anima ou nos tira o brilho? E não se trata de aprender ou modelar ou alistarmo-nos a um qualquer exército global, com normas e formas e leis anti-imorais. Que conceitos podem explicar tudo aquilo que somos se já existiam antes nós?
O segredo é a receita, em precisão microscópica, dos nossos componentes mais básicos: pedras e ventos lunares, água e Mar, estrelas em pó e quase-três buracos-negros espremidos, para cortar o doce. É saber quanto deles é que espremeram em nós. Quanto de nós é vazio - só isso. O Inexplorável, porque não há nada para além do limite. O sacro-limite, o supra-super-ego a limitar a vontade de ser mais, de ser tanto até transbordar e encher todas essas partículas de buracos que flutuam em nós. Esta seria a última revolução para sermos todos unicamente iguais: o total-preenchimento, mesmo que os moldes possam ter um ou outro defeito a diferenciar-nos. Seria melhor um mundo todo da mesma cor com o mesmo ruído a fazer-se língua? É este encurtamento do abraço genético a verdadeira evolução? Sermos unos, no único sentido da palavra, é a outra vida ou o fim de todas?
Durante todo o Tempo tivemo-los a menos de um centímetro de nós com o nosso manual de instruções ainda por abrir. O segredo e o medo sempre viveram connosco na sua relação de comensalismo. São os nossos parasitas mais inaniquiláveis. Mas também eles são o que somos. E nós o reflexo dos dois. Vivemos os três numa harmonia descompensada. Seria assim tão mais fácil se fossemos corajosos o suficiente para enfrentarmos o nosso medo até descobrirmos para quê que servimos? Seriamos mais felizes por saber verdadeiramente o nosso tamanho, apesar do medo?
Revela-te lá um bocadinho, ó habitante da outra face de mim. Deixa-me ver, pelo menos, a forma dos teus olhos, para que no meu olhar haja mais certezas sobre esta volição, em consecutivas explosões, a abalar toda a caixa que sou. Que seja esse o grande desafio, aceito-o, mas muda a maré da Verdade para que tenha mais força. De que me serve a âncora, senão de estorvo, se onde estou é um lugar estagnado?
27 Agosto 2014 : 18.58