sábado, 12 de novembro de 2011

Madrugada em Lisboa.

Que chão é este?
e que casas?
e que céu?
e que cheiro que vem do chão?
e que céu que não é céu?
algum Deus que me acuda (se ainda há um que reze por mim).
não há chão que me segura.
não há tecto para o coração.

12 Novembro 2011 : 09.48

Faz de conta.

Anda deitar-te comigo e faz de conta que já é (a)manhã. Vamos imaginar um mar novo a subir pela parede e, no tecto, animais constelares de galáxias por descobrir. Vamos renomear os gestos para os poder desenhar com letras, explicá-los melhor. Vamos fumar à janela para que o teu perfume seja o meu. Ou vem sossegar-me apenas no teu silêncio nocturno enquanto a alba me sussura mistérios do amor.
5 Julho 2011 : 23.06

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Cadência.

gostava de te encontrar só para dizer tudo o que não disse
gostava de te encontrar só para dizer tudo
gostava de te encontrar só para dizer
gostava de te encontrar só
gostava de te encontrar
gostava de
gostava ?



5 Maio 2011 : 04.53

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Ensaio sobre o luto.



O luto tem três dias.
Ao céu, à terra e ao mar.
Mas há dias em que não luto
E o luto parece voltar.


20 Abril 2011 : 03.14

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Despi a armadura do peito e abraço-te assim, em carne viva, na esperança que o protejas. Na esperança que faças do teu peito o abrigo para as falhas do meu. Sem armaduras, nem outros artefactos. Só eu e tu. E a Vontade de sermos mais.
27 Fevereiro 2011 : 09.34

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Última viagem.

Uma viagem em linha recta, silenciosa. Há um lugar vazio a mais no carro. Os faróis estão fundidos e são inúmeros os sinais de perigo. Parti o eixo da direcção. Os travões estão gastos demais. Não há mapa que marque o meu destino e tenho o coração a exceder o limite máximo de velocidade.
Encravei a minha vida no ponto morto, mas parece que tudo está a andar de marcha-atrás.
27 Dezembro 2010 : 21.18

[fotografia: autor desconhecido]

domingo, 26 de dezembro de 2010

As pessoas desalinham-se dos eixos. Deixam de ser constelações evidentes e passam a corpos celestes em decadência. Entram em rota de colisão, que escolhem, minuciosamente, mesmo antes de perceberem o impulso. E não levam nada senão a incerteza escura de se desfazerem em pedaços, de se fragmentarem em partículas brilhantes e douradas da beleza que já foram. Arranham os dias e cada segundo dos dias, com cada palavra, com cada vontade por acontecer. E alimentam os desejos indesejados de ascender na pureza dos sonhos e ser estrela de novo. De ser leve e vazio. De não ser.

26 Dezembro 2010 : 10.10


[fotografia: autor desconhecido]

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Que seja Noite. Dentro e fora de mim.

14 Dezembro 2010 : 23.58

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Homo-homens.

Fragilidades ósseas. Roturas musculares iminentes. Desgaste em cada milímetro de pele.
Assumem-se como o escudo e a força de quem luta. Protegem e envolvem em momentos de queda. Marcam terreno, dominam e defendem-no pela sua genética. Acordam na confiança de que o dia corra como sempre corre, como sempre querem que corra. Adormecem com a vontade de que a Vontade se deite com eles um dia. São imaturidade azul numa carapaça que cresceu demais (e que bem que lhes fica!). Não choram com os olhos mas nos abraços que partilham com os seus irmãos. E esses abraços são mais que braços e força.
São homens com cristais pendurados nos olhos e sangue escuro em cada poro do corpo. São vitalidade e robustez. São amor numa palavra condensada que tatuaram no peito. São desejos oníricos de que aconteça de vez. São segredos. São manchas de suor e rasgões na roupa que usam. São impulsos desviados. São dias e noites de beijos controlados.

25 Outubro 2010 : 04.59

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A utopia é exactamente isso: a pena perpétua de ficarmos condenados à condição de não querermos ser mais do que somos. E não há a merda de um único artigo que venha em nossa defesa quando o juízo é feito antes de qualquer vontade começar.

8 Outubro 2010 : 05.18