quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Nos nossos sonhos são eles que nos engatam a nós. Como se gozassem de um poder qualquer que os fizesse seduzir tudo o que olha para eles. Rasgam os olhos com um sorriso coroado de dentes brancos. Usam barba, estrategicamente desenhada nos contornos de um maxilar robusto. Alguns usam brincos, apertados à orelha, outros usam apenas o cabelo rapado. Mas há sempre uma semelhança entre eles todos: abraçam-me, em segredo, durante todo o tempo que eu preciso, como se o segredo fosse tudo o resto para além daquilo.

O.

14 de Dezembro, 2011

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Tatuaste-me o corpo de hematomas e arranhões, por fora e por dentro, que são as únicas palavras tuas que ainda consigo lembrar. O que fomos nós senão dois miúdos a lutar pelo brilho nos olhos um do outro?
6 Dezembro 2011 : 00.39

sábado, 12 de novembro de 2011

Madrugada em Lisboa.

Que chão é este?
e que casas?
e que céu?
e que cheiro que vem do chão?
e que céu que não é céu?
algum Deus que me acuda (se ainda há um que reze por mim).
não há chão que me segura.
não há tecto para o coração.

12 Novembro 2011 : 09.48

Faz de conta.

Anda deitar-te comigo e faz de conta que já é (a)manhã. Vamos imaginar um mar novo a subir pela parede e, no tecto, animais constelares de galáxias por descobrir. Vamos renomear os gestos para os poder desenhar com letras, explicá-los melhor. Vamos fumar à janela para que o teu perfume seja o meu. Ou vem sossegar-me apenas no teu silêncio nocturno enquanto a alba me sussura mistérios do amor.
5 Julho 2011 : 23.06

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Cadência.

gostava de te encontrar só para dizer tudo o que não disse
gostava de te encontrar só para dizer tudo
gostava de te encontrar só para dizer
gostava de te encontrar só
gostava de te encontrar
gostava de
gostava ?



5 Maio 2011 : 04.53

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Ensaio sobre o luto.



O luto tem três dias.
Ao céu, à terra e ao mar.
Mas há dias em que não luto
E o luto parece voltar.


20 Abril 2011 : 03.14

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Despi a armadura do peito e abraço-te assim, em carne viva, na esperança que o protejas. Na esperança que faças do teu peito o abrigo para as falhas do meu. Sem armaduras, nem outros artefactos. Só eu e tu. E a Vontade de sermos mais.
27 Fevereiro 2011 : 09.34

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Última viagem.

Uma viagem em linha recta, silenciosa. Há um lugar vazio a mais no carro. Os faróis estão fundidos e são inúmeros os sinais de perigo. Parti o eixo da direcção. Os travões estão gastos demais. Não há mapa que marque o meu destino e tenho o coração a exceder o limite máximo de velocidade.
Encravei a minha vida no ponto morto, mas parece que tudo está a andar de marcha-atrás.
27 Dezembro 2010 : 21.18

[fotografia: autor desconhecido]

domingo, 26 de dezembro de 2010

As pessoas desalinham-se dos eixos. Deixam de ser constelações evidentes e passam a corpos celestes em decadência. Entram em rota de colisão, que escolhem, minuciosamente, mesmo antes de perceberem o impulso. E não levam nada senão a incerteza escura de se desfazerem em pedaços, de se fragmentarem em partículas brilhantes e douradas da beleza que já foram. Arranham os dias e cada segundo dos dias, com cada palavra, com cada vontade por acontecer. E alimentam os desejos indesejados de ascender na pureza dos sonhos e ser estrela de novo. De ser leve e vazio. De não ser.

26 Dezembro 2010 : 10.10


[fotografia: autor desconhecido]

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Que seja Noite. Dentro e fora de mim.

14 Dezembro 2010 : 23.58