sábado, 12 de maio de 2012

Romaria.

Há romarias que ainda não percebo. Confessamos os nossos pecados (sempre em primeiro lugar!) apesar de ser heresia toda a penitência. Guardamos dois ou três cigarros para a viagem, não vá o folego nos falhar. E andamos, em matilhas a céu descoberto, à procura do destino desta procissão. O engraçadado é que acabamos no mesmo sítio, sem penitências aparentes mas com mais pecados por confessar.

12 Maio 2012 : 12.36

quarta-feira, 7 de março de 2012

Hoje percebi que não basta ter abrigo para o meu peito ou ver-me nos teus olhos logo de manhã. Preciso mais que isso. Preciso ter a certeza que não me tiram isso amanhã.

7 Março 2012 : 21.15

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Podia ser.

Chega-te mais para aqui. Consegues ouvir o mar? Encomendei todas as ondas para ti. Três por cada noite em que não me aqueceste os pés. Geralmente não se consegue ouvi-lo daqui, mas hoje é uma noite especial: moldei o cobertor e almofada para que sejas tu. Hoje dormes comigo mesmo que não digas nada.
27 Dezembro 2011 : 01.08

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Nos nossos sonhos são eles que nos engatam a nós. Como se gozassem de um poder qualquer que os fizesse seduzir tudo o que olha para eles. Rasgam os olhos com um sorriso coroado de dentes brancos. Usam barba, estrategicamente desenhada nos contornos de um maxilar robusto. Alguns usam brincos, apertados à orelha, outros usam apenas o cabelo rapado. Mas há sempre uma semelhança entre eles todos: abraçam-me, em segredo, durante todo o tempo que eu preciso, como se o segredo fosse tudo o resto para além daquilo.

O.

14 de Dezembro, 2011

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Tatuaste-me o corpo de hematomas e arranhões, por fora e por dentro, que são as únicas palavras tuas que ainda consigo lembrar. O que fomos nós senão dois miúdos a lutar pelo brilho nos olhos um do outro?
6 Dezembro 2011 : 00.39

sábado, 12 de novembro de 2011

Madrugada em Lisboa.

Que chão é este?
e que casas?
e que céu?
e que cheiro que vem do chão?
e que céu que não é céu?
algum Deus que me acuda (se ainda há um que reze por mim).
não há chão que me segura.
não há tecto para o coração.

12 Novembro 2011 : 09.48

Faz de conta.

Anda deitar-te comigo e faz de conta que já é (a)manhã. Vamos imaginar um mar novo a subir pela parede e, no tecto, animais constelares de galáxias por descobrir. Vamos renomear os gestos para os poder desenhar com letras, explicá-los melhor. Vamos fumar à janela para que o teu perfume seja o meu. Ou vem sossegar-me apenas no teu silêncio nocturno enquanto a alba me sussura mistérios do amor.
5 Julho 2011 : 23.06

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Cadência.

gostava de te encontrar só para dizer tudo o que não disse
gostava de te encontrar só para dizer tudo
gostava de te encontrar só para dizer
gostava de te encontrar só
gostava de te encontrar
gostava de
gostava ?



5 Maio 2011 : 04.53

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Ensaio sobre o luto.



O luto tem três dias.
Ao céu, à terra e ao mar.
Mas há dias em que não luto
E o luto parece voltar.


20 Abril 2011 : 03.14

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Despi a armadura do peito e abraço-te assim, em carne viva, na esperança que o protejas. Na esperança que faças do teu peito o abrigo para as falhas do meu. Sem armaduras, nem outros artefactos. Só eu e tu. E a Vontade de sermos mais.
27 Fevereiro 2011 : 09.34