segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Homo-homens.

Fragilidades ósseas. Roturas musculares iminentes. Desgaste em cada milímetro de pele.
Assumem-se como o escudo e a força de quem luta. Protegem e envolvem em momentos de queda. Marcam terreno, dominam e defendem-no pela sua genética. Acordam na confiança de que o dia corra como sempre corre, como sempre querem que corra. Adormecem com a vontade de que a Vontade se deite com eles um dia. São imaturidade azul numa carapaça que cresceu demais (e que bem que lhes fica!). Não choram com os olhos mas nos abraços que partilham com os seus irmãos. E esses abraços são mais que braços e força.
São homens com cristais pendurados nos olhos e sangue escuro em cada poro do corpo. São vitalidade e robustez. São amor numa palavra condensada que tatuaram no peito. São desejos oníricos de que aconteça de vez. São segredos. São manchas de suor e rasgões na roupa que usam. São impulsos desviados. São dias e noites de beijos controlados.

25 Outubro 2010 : 04.59

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A utopia é exactamente isso: a pena perpétua de ficarmos condenados à condição de não querermos ser mais do que somos. E não há a merda de um único artigo que venha em nossa defesa quando o juízo é feito antes de qualquer vontade começar.

8 Outubro 2010 : 05.18

sábado, 18 de setembro de 2010

O corpo assume outra forma e a cabeça deixa de pensar. Fluidifico-me e congelo o peito na contradição de guardar todos os gritos só para mim. E os gritos são só a natureza inata do que sou. Por isso hoje aumento a dose e espero abrir os olhos amanhã, mesmo que o amanhã pareça não valer tanto a pena. Vou abrandar o ritmo do coração e afundar-me novamente em letargias inconscientes. Afinal é exactamente isso que sou: um coração arrítmico com braços e pernas de exaustão.

18 Setembro 2010 : 11.56

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

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M O m e n t O S
m e n t I R A
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terça-feira, 3 de agosto de 2010

Anúncio.

O que será que estás a fazer neste momento? Eu acabei de fumar e agora escrevo-te enquanto a Beni dorme aos pés da cama. Será que estás de férias? Ou esperas numa fila de trânsito no regresso a casa? Em que fila de trânsito? Em que carro? Em que casa é que vives? Acreditas que podemos existir mesmo sem existirmos um para o outro ainda? Já conto com vinte-e-dois anos de histórias e estórias mas nunca ouvi nenhuma tua. Nunca me contaste nenhuma, acho eu. Será que já nos vimos? Será que já me viste? Se calhar também me escreves. Escreve-me. E guarda tudo em garrafas vazias. Uma por cada noite sem mim. Eu faço o mesmo por ti.
3 Agosto 2010 : 20.16

terça-feira, 27 de julho de 2010

Porto.

Hoje a noite cresce com o cheiro a incêndio. Deixaram alguma coisa a arder tempo demais. Talvez fossem barcos, ancorados a um porto qualquer que fosse o seu lar. Nem a água soube o que fazer desta vez e eles alastraram-se em braços vermelhos e amarelos num abraço de calor. Chegaram a nós no perfume do incenso que são. E levam-nos na mesma a viajar. Onde as estrelas são mais que poeira e o chão é feito de sonhos reais. Fechamos os olhos e estamos lá. Sem remos nem outras seguranças. Sem água. Sem ar. Só nós, feitos de madeira, com as proas aguçadas e corajosas, e transportamos as vontades de ser mais que isto. Não há velas nem mastros, apenas quilhas pesadas e âncoras para sabermos parar. Um dia, também nós podemos arder, quando nos deixarmos consumir a nós próprios, e pode ser que alguém queira viajar naquilo que sempre fomos, água e ar, sem madeira nem cascos vigorosos. Nós somos onde os outros viajam. Permitimos-lhes as viagens que nos deixam marcas na passagem. Nós permitimos. E apesar de todos os gritos e de todas as horas atrás da janela não condeno a minha natureza.
Hoje a noite cresce com o cheiro a mar. Talvez hajam barcos à deriva à espera de um porto seguro. Oxalá a maré esteja a favor.

27 Jul 2010 : 22.17

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Dissolvo-me em arrepios. Abro os olhos e deixo-as sair. Hoje não dá para dizer que não. Se ao menos soubesse como desatar os nós que fui fazendo ao coração. Se ao menos permitisse alguém de o fazer por mim. Sinto as vontades novamente a aflorar à pele, em gritos aguçados de raiva. E eu deixo que me comandem, numa submissão absurda à minha racionalidade.
Hoje não dá para dizer que não. As fotografias corroem-me as pálpebras em memórias demasiado pesadas para partilhar só com a minha cama. Por isso deslaço-me de mim mesmo, para me atar da mesma forma antes que alguém perceba.
14 Junho 2010 : 19.51

terça-feira, 8 de junho de 2010

Poesia vespertina.

apetece-me fumar
fumar excessivamente
e afundar os meus pulmões
em secreções e fumos espessos
apetece-me alastrar epidemias pelo corpo
e deixar o cansaço escorrer até aos pés
abrir fendas profundas
nos olhos
e perder a orientação do real
hoje o dia está em sintonia comigo
ou então fui eu que me sintonizei com ele
aborrece-me a monotonia das rotinas
ao menos que chova
de vez
dói-me
a cabeça
8 Junho 2010 : 17.25

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Em rotação.

A terra gira em torno do seu eixo a uma velocidade aproximada de 465 m/s e nós não sentimos nada. Será que nós também rodamos sobre nós próprios e só percebemos isso mais tarde?
20 Maio 2010 : 01.48

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Não merece título.

Não há luzes. E por mais que seja a vontade, deixo sempre que me escureçam os olhos. Fico preto e fechado. Condenso-me. Altero os sentidos e deixo-os aguçados. E sinto mais, numa pureza pegajosa de quem esperou por esta vez. Não quis que acontecesse. Aconteceu.
Espero que o corpo volte a mim. Ou que eu desça sobre o meu corpo.
5 Maio 2010 : 07.33