sábado, 5 de abril de 2008

O meu sangue.

Deixei-me arder em vermelho, cor dos lábios a morderem por mais. Impulso canibal de não aguentar os instintos. E a tua voz sempre na minha cabeça como tortura merecida. Possuí-me. Deixei-me violar agarrado à pele do corpo e cobri-me de arranhões cheios de vontade. Pecados morais que nunca vais entender porquê. As coisas do outro lado do espelho são tão diferentes. Parece que tudo estala constantemente quando me aproximo do que quero, quando me sinto seguro. Depois sinto o sangue a mudar, a voltar ao que fora, carregado de imagens e outras cores, outros cheiros, outras músicas, e a magoar-me a cada nova pulsação. E eu juro que tento lutar para que não doa. Expludo de vez para gritar por cada pedaço meu, como se isso não me fosse coser de volta da mesma forma. Quero-te mais perto do que agora, mas sinto cada vez mais o teu olhar de longe e é tão pouco o tempo que posso adormecer nele. Quero voltar a enrolar-me em ti, no refúgio do teu abraço, e sentir-te como segunda pele.
Faz-me esquecer-me.

5 Abril 2008 : 05.48

segunda-feira, 31 de março de 2008

Um cheirinho do concerto...




Portishead - Over
26 Março 2008 . Coliseu do Porto

terça-feira, 18 de março de 2008

Zirigaitai upi upi ai
Zirigaitai upi upi ai ai ai ai ai
Zirigaitai upi
Zirigaitai upi
Zirigaitai upi upi ai.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Quimera (ou o cavalo de papel).

antes fosse tudo feito em papel
cavalos desenhados em preto escuro
como água que escorre
molha o chão
decompõe quem vive para lá
antes fosse tudo feito em papel
pautado ou liso
com as margens disponíveis para ser arrancado
amarrotado
rasgado e colado
antes fosse tudo feito em papel
mais fraco que cartão
flexível
com a forma dos dias
e com a cor que o tempo lhe dá
antes tudo fosse feito em papel
para recortarmos os caminhos mais vazios
para preenchermos a cheio todas as linhas certas
para desenharmos (sem esboço) o que queremos.

7 Março 2008 : 23.04

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Peço, então, a uma abelha que te embale numa mordedura eficaz no canto da orelha e que te conte sobre histórias tão vermelhas como o vinho que me adoçou ao jantar. Histórias sobre escadas que são feitas de estrelas (ou outros pós brilhantes) e sobre a Lua, que apareceu hoje grande demais, nascida do meio do asfalto e das torres mais altas. Uma história que explica que a Sarah Brightman não canta, berra, mas que apesar de tudo tem umas pernas fantásticas. Espero ainda que sonhes com folhas verdes guardadas nos bolsos, que morreram de tanto esperarem.
Preciso de outro hamburger!
23 Fevereiro 2007 : 06.21

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Relíquias.

Porque tu tens as mãos lisas para poder escrever e Luas nuas nos teus olhos que borratas na minha cabeça. E enquanto guardamos relíquias nos bolsos, vais escrevendo a fugir.

21 Fevereiro 2007 : 23.01








[autor da fotografia: desconhecido]

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008



Sometimes

A wind blows

And you and I

Float

In love

And kiss forever

In a darkness

And the mysteries of love

Come clear

And dance

In light

In you

In me

And show

That we

Are Love
Antony and the Johnsons - Mysteries Of Love

ps.: Obrigado R.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Já alguma vez disse que ODEIO estudar Farmacologia? Enfim...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Homólogo.

Fugiste de casa e não soubeste em que mar te deixaste mergulhar. Tinhas a cabeça coroada de espinhos como os que te apertavam no peito. Quiseste gritar mais alto que todas as regras que te regulam os passos. Quiseste gritar mais alto do que tu.
Tinhas o andar decidido de quem procura o que não sabe. Na cara o espanto de um mundo novo. O meu. Toquei-te para que a tua queda não fosse solitária. Uma queda a um inferno que não te contaram, onde os cadáveres ainda se riem dos seus pecados, num lume que só acende mais o desejo de tomar alguém. Nem sabia de onde vinhas, o que eras sequer. Tinhas as mãos limpas demais. Um olhar demasiado brilhante. E tens razão quando dizes que não soube lidar contigo.
Um novo encontro. Mais perto. Encontrei-te a suavidade do beijo e o teu corpo frio para abraçar. Aqueci-te mais do que a mim, enquanto me contavas histórias de amor que nunca foram escritas. O teu corpo estava dividido e tinhas a alma arranhada. Ardiam-te os olhos enquanto me inundavas de sensações adormecidas, esperanças que me esqueci de ter. Eras igual a mim quando eu o fui. Viciei-me no encanto de todos os laços que te atavam o coração.
Levei-te numa viagem onde conheceste novos prazeres, novas maneiras, novas pessoas. Quis que te enraizasses aqui também. Quis te ver crescer, mas ainda te pesam as lembranças do teu único amor. Se fosse eu a destruir isso, destruía o que mais gosto de ti.
Por isso voa. Agora já sabes como voltar ao meu peito.
30 Janeiro 2008 : 02.26

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Fábula.

Era uma vez uma casa de telhados duros e janelas opacas e fechadas. Guardava os fumos numa nuvem negra e brilhante e o papel de parede caía agarrado ao estuque. No chão, abriam-se poças de chuva azeda, infestada de um cheiro desagradável.
Às vezes, enchia-se de corpos de várias formas e feitios, adornados com jeitos e idiossincrasias únicas. Corpos-mutantes, numa mistura entre felinos e humanos, de garras compridas e olhos pequenos. Fundiam-se. Orgias singulares de quem vive sem sons no peito. Banquetes de luxúria abrasiva onde a pele era arrancada sem vestígio de sangue possível. Delícias de um mundo tão grande e reservado, onde só entra quem souber respirar melhor. Um mar de cadáveres, num suor de sombra rente à boca seca de novas palavras.
As divisões transbordavam de ecos vibrantes e o chão era de tapetes estranhos, um veludo invulgar que arranhava como unhas mal limadas.
Um dia ouviu-se um grito e as portas abriram-se de repente. Espalharam-se passos apressados e deixaram um murmúrio para trás. Apenas um murmúrio violento no lugar da cama.
E os dias passaram, com horas a mais no mesmo relógio. E as distâncias, essas, eram longas demais para se medirem.
Cantaram os corvos, ainda ao longe, que haviam de ruir a casa, em pétalas de mil cores e cheiro a citrinos frescos, e que me iriam tatuar sorrisos no canto dos lábios. Um dia. Quem sabe.
15 Janeiro 2008 : 02.34