quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Há assuntos que são demasiado aguçados para se falar. Ao mínimo descuido enfiam-se nos ouvidos e bordam-nos uma rede que não deixa entrar mais nenhuma parte da informação. Consequência de um à vontade que ainda vai ser. Não vejo mal quando me falas do que foi. Irrita-me é o facto de ainda não conseguir perceber que não há problema nisso. Acho que ainda tenho que ganhar mais imunidade porque só assim é que posso estar seguro. Até lá ainda vou fazer muitas feridas nos ouvidos que alastram em infecção até outras partes do meu corpo.
18 Fevereiro 2009 : 01.28

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Prelúdio.

A vontade aflorou mais cedo à ponta dos dedos, preenchendo todos os pequenos vasos de um magnetismo diferente. Pesaram-me as mãos.
Foi-me repetido aos ouvidos aquela palavra volátil e aguda. Raspou em cada canto das circunvoluções da cabeça como quem grita "voltei!" e afundou-me os olhos de novo em imagens. Sente-se o corpo a amolecer, numa sonolência viscosa de quem funde as pálpebras contra a vontade. Regressam as músicas que nos reconquistam em marcha triunfal. Perfuram-nos os sentidos e encerram-nos sobre nós próprios. Fechamos.
Suspirei e a vontade foi-se. Mas continuo fechado.

17 Novembro 2008 : 22.20

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Perene.

Às vezes nem sabemos que os temos. Entranham-se. Alimentam-se do que comemos, respiram-nos o ar. Toda a gente os tem. Toda. Nunca estamos sozinhos. Nunca nos deixam. Zumbem nos ouvidos, ardem na pele, entopem os sentidos. Paralizam-nos, mesmo no grito.

- Está tudo bem?
- Sim.

Quase que sentimos vontade de vomitar de tanto nojo, de tanto ódio, de tanto medo. Atacam-nos de repente e mudam-nos as palavras e as imagens e a maneira de pensar. São resíduos do que fomos que deixam queimaduras por dentro.
Às vezes esquecemo-nos que os temos. Somos confiantes e acreditamos nisso. Mentimos. Perdemos a noção de que eles são verdadeiros até se repetirem, eventualmente. Alguns repetem-se. Vício absurdo.

- Mesmo?
- Sim.

Abafamos outra vez todo o pânico, enquanto o deixamos consumir-nos devagar, devagar, devagarinho. Ficamos curtos e mudos até para nós próprios. Não sabemos como nos explicar e vivemos assim.
Acaba por passar com tempo. Até à próxima vez que me lembrar.

- Queres-me contar alguma coisa?
- Não. Estou bem.

Morrem connosco. Na mesma campa, no mesmo caixão, na mesma roupa, na mesma pele, no mesmo sangue. Nem mesmo o último suspiro os deixa sair.
Se imaginarem o silêncio é isso que eles são. Silêncio.
23 Julho 2008 : 04.31

quinta-feira, 3 de julho de 2008

20.

Como será não ser mais um teenager ?

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Madrugada.

A cama fica com a forma dos corpos depois do sexo. Os meus dedos ondulam com os lençois sobre formas quase geométricas e cada poro abre-se para novas sensações. Arrepio-me.
Aperto-te contra mim e tremes. Arrancas-me beijos da boca enquanto te mexo no cabelo. Não há espaço entre nós. Somos um abraço único.
Sinto o meu cheiro espalhado pela tua pele. Arranho-te o peito e tenho um orgasmo de imagens. Apenas o teu corpo em pormenores, como detalhes de uma fotografia tua. Sinto-te.
A cama arrefece depois do sexo. Hoje fico com a tua forma dentro de mim. E antes de adormecer, depois de eu também ser o escuro do quarto, agarro-te de novo.
26 Maio 2008 : 03.14

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Berros.

As relação não existem. São manchas nos dias que desaparecem com Martini. Ou então não.

Às vezes achamos que as pessoas nos dizem alguma coisa, coisas especiais, mas nada é para sempre. As pessoas muito menos.
A minha cara é um holofote que atrai olhares-insectos de todos os lados. Traças que dançam à volta dos ouvidos, num zumbido de frequência estranha. Estou taquicárdico ou é a música a fazer pressão em mim?
As relações são como sombras. Ora estão, ora não. Não existem. São apenas projecções daquilo que queremos que elas sejam. Só isso.
16 Março 2008 : 01.17

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Porque é que as pessoas quando andam arrastam os guarda-chuvas? Será por menor esforço ou por mero ponto de equilíbrio desalinhado? Faz-me pensar.

15 Maio 2008 : 17.58

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Levaste-me ao pescoço, num vestígio de beijo que deixei marcado no metal. Senti o peso da coragem ancorar-se em ti. Agora dizes que vais embora e não me deixas nada senão fotografias na cabeça. Se soubesses ao menos porque é que chove. Nem sabes que está a chover, tão pouco. E que doi, apesar da voz.
Hoje o céu voltou a ser de outra cor e é a música que decoraste para mim que me faz olhar para ele.

10 Abril 2008 : 00.37

RomeuRomeu em Metamorfose.

Um silêncio que me cobre o corpo outra vez. As pessoas são restos, não pensam sequer. Usam os corpos para dançarem com as folhas e o vento e nada mais que isso. São restos.
Não houve varandas ou outros adornos fictícios, mas proibiram-nos o toque. Depois a luta ao estilo do teu Alexandre, com ouro e grandes véus de seda, que se afundou de tão triunfal que era. Deixaste ser assim. Não te condeno. As vozes nos ouvidos eram demais e não tinhas corpo suficiente para aguentar com tanto peso.
As pessoas são merda. Servem só para meia dúzia de orgamos e para partilhar cafés e cigarros. Mais nada. E o que resta são as tentativas de ser alguém e de conseguir ser mais do que somos. Mas a condição humana é a porra que sabemos, uma âncora bem apertada aos pés para nos lembrarmos que as putas das asas só os pássaros é que podem ter. Por isso, chega de tentar.
Há-de ser um dia. Desta vez não foi, por mais que quisesses. Pode ser que um veneno me mostre o final feliz.

9 Abril 2008 : 23.57

sábado, 5 de abril de 2008

O meu sangue.

Deixei-me arder em vermelho, cor dos lábios a morderem por mais. Impulso canibal de não aguentar os instintos. E a tua voz sempre na minha cabeça como tortura merecida. Possuí-me. Deixei-me violar agarrado à pele do corpo e cobri-me de arranhões cheios de vontade. Pecados morais que nunca vais entender porquê. As coisas do outro lado do espelho são tão diferentes. Parece que tudo estala constantemente quando me aproximo do que quero, quando me sinto seguro. Depois sinto o sangue a mudar, a voltar ao que fora, carregado de imagens e outras cores, outros cheiros, outras músicas, e a magoar-me a cada nova pulsação. E eu juro que tento lutar para que não doa. Expludo de vez para gritar por cada pedaço meu, como se isso não me fosse coser de volta da mesma forma. Quero-te mais perto do que agora, mas sinto cada vez mais o teu olhar de longe e é tão pouco o tempo que posso adormecer nele. Quero voltar a enrolar-me em ti, no refúgio do teu abraço, e sentir-te como segunda pele.
Faz-me esquecer-me.

5 Abril 2008 : 05.48