segunda-feira, 25 de março de 2013

Chá a Santa Clara.

um chá apressado
como quem pede uma benção de última hora
um chá só para aquecer por dentro
um chá só para aquecer
um chá só
só um chá
um chá sozinho
estou sozinho
mas estou quente
aliás, a aquecer
a esquecer
já esqueci.

24 Março 2013 : 18.50

domingo, 24 de março de 2013

E se o meu corpo fosse de lenha a inflamar com qualquer faísca?
E se o meu corpo fosse de pedra que arrefecesse depois de todas as tardes?
E se o meu corpo fosse só ar a depender da força da mínima brisa?
E se o meu corpo fosse o mar a esmorecer a sua vontade tsunamica?

24 Março 2013 : 06.59

quinta-feira, 21 de março de 2013

Dia Mundial da Poesia.

Ser poeta nada tem a ver com altura, nem volume ou simetrias.
Ser poeta nada tem a ver com rima ou cantiga.
Ser poeta não é fazer poemas e muito menos escrever.
Ser poeta é olhar de dentro para fora e perceber que temos todos a mesma forma nos ossos.


21 Março 2013 : 18.02

segunda-feira, 18 de março de 2013

P

Tens uma ancôra dentro do peito e nos ossos guardas infinitos grãos de areia. Viajas sempre connosco às costas, por mais agitado que esteja o mar. Deste-me os teus olhos para que também eu consiga decifrar-te os mapas e descobrir os tesouros que enterraste em mim. E agora eu vejo: sempre tive saudades tuas, de me segurares na água no verão e de me mostrares todos os castelos do meu país. Coraste-me um príncipe logo à nascença, porque é real o sangue que partilhamos. És um herói todos os dias e nunca pareces cansado demais. Acima de tudo, tens sempre tempo para falar comigo. Sempre! Não há lugar melhor do que a imensidão que é o teu abraço. Às vezes esqueço-me que apesar de ter crescido ainda caibo tão bem ao teu colo. Gosto de sair de casa com os teus perfumes e de pensar que te trago ao pescoço. Mas já estás em todo o lado do que eu sou. Por dentro e por fora. Por isso, Pai, acho que mereces muito mais que um dia. Mereces a minha vida toda.
18 Março 2013 : 02.34

quarta-feira, 13 de março de 2013

Prato do dia.

As pessoas que almoçam consigo próprias devoram-se entre o rissol de camarão e a sopa. É quase como um acompanhamento que enche por si só. Enche, enfarta, entope. Deixam-se implodir lentamente, com os bracinhos deitados numa nesga de sol sobre a mesa. Alheios às buzinas lá fora, alastram as olheiras, enrijecem os cabelos, reduzem a boca a um corte cirúrgico imperceptível. Entregam-se, sem luta, num delicioso prazer autofágico. Membro a membro, músculo a músculo. Mmmm! As pernas são as primeiras, antes que apareça a vontade de mudar de sítio. Os braços antes das vísceras, começando pelos dedos. Por último, todo o recheio da cabeça, que apesar de pouco é o mais saboroso. Só não comem os olhos, que as cataratas, miopias e outras deficiências na capacidade de focar deixam-nos demasiado azedos. No fim do banquete, deixam uma carcaça de pele e pêlos esticada na cadeira. O telemóvel também vai, junto com o café.
Posso pagar com multibanco? Olhe, esqueça que também acho que comi o cartão. Ponha na conta que eu pago amanhã. Tenha um bom dia.
Arrotam de boca cheia e limpam a boca à saída.
Acho que comi demais.
13 Março 2013 : 02.20

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

tentaste aproximar-nos
fundir os nossos continentes
mas as minhas palavras cristalizaram na ponta da língua
e alastraram numa imensa cordilheira acuminada
só uma sombra
silenciosa
a habitar as planícies áridas que somos nós
 
faltou-te a força
e a mim a coragem
para rebentarmos em abraços magmáticos
e sulfúricas cortesias
vontades de um amor maior
vontades para um amor maior
e melhor
que derretem na sua incapacidade de ser
de poder e querer
pricipitando em camadas para dar robustez à inércia do coração
21 Dezembro 2012 : 21.27

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Dia dois.

Quando anoitece em Lisboa
os pesadelos são reais.

13 Setembro 2012 : 01.12

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Dia um.

Quando anoitece em Lisboa
o céu não cheira a mar.

11 Setembro 2012 : 21.05

domingo, 26 de agosto de 2012

Pintei o corpo de dourado para que seja sempre fim de tarde nas viagens que fazes pelas planícies do meu peito.
Às vezes viajas de barco na ondulação da minha respiração, mas é quando viajas descalço e acompanhas o compasso do meu pulso que te sinto mais forte, mais firme, nos socalcos do coração.

19 Agosto 2012 : 20.20

segunda-feira, 16 de julho de 2012

viagens marítimas sobre a pele
a minha
e a tua
num embate de sal e areia de uma praia por inventar
no atrito das tuas mãos
sussurrantes
em consecutivos arrepios

esperamos as brisas por vir
e os segredos por contar
acendemos fogueiras pagãs
para dançarmos com olhos-ciganos
ancorados ao abraço um do outro
abraçados às vontades um do outro
embalados nas lutas um com o outro
um contra o outro
em arrítmicos beijos de olhos fechados

inflamo-te as penas escuras
em miados lunares
sob estrelas
sobre mares
em quilhas robustas de barcos encalhados
e deixamos que as gaivotas me tragam saudades de casa
outra que não tu

17 Julho 2012 : 00.45