Era uma vez uma casa de telhados duros e janelas opacas e fechadas. Guardava os fumos numa nuvem negra e brilhante e o papel de parede caía agarrado ao estuque. No chão, abriam-se poças de chuva azeda, infestada de um cheiro desagradável.
Às vezes, enchia-se de corpos de várias formas e feitios, adornados com jeitos e idiossincrasias únicas. Corpos-mutantes, numa mistura entre felinos e humanos, de garras compridas e olhos pequenos. Fundiam-se. Orgias singulares de quem vive sem sons no peito. Banquetes de luxúria abrasiva onde a pele era arrancada sem vestígio de sangue possível. Delícias de um mundo tão grande e reservado, onde só entra quem souber respirar melhor. Um mar de cadáveres, num suor de sombra rente à boca seca de novas palavras.
As divisões transbordavam de ecos vibrantes e o chão era de tapetes estranhos, um veludo invulgar que arranhava como unhas mal limadas.
Um dia ouviu-se um grito e as portas abriram-se de repente. Espalharam-se passos apressados e deixaram um murmúrio para trás. Apenas um murmúrio violento no lugar da cama.
E os dias passaram, com horas a mais no mesmo relógio. E as distâncias, essas, eram longas demais para se medirem.
Cantaram os corvos, ainda ao longe, que haviam de ruir a casa, em pétalas de mil cores e cheiro a citrinos frescos, e que me iriam tatuar sorrisos no canto dos lábios. Um dia. Quem sabe.