terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Mordaça.

Soltem-se os vidros das janelas e caiam as casas aos pedaços. Preciso de espaço para rebentar com a cabeça. E com os braços, pernas e peito. Manchar tudo num oceano escuro. Reduzir-me a um berro de fumo. Reduzir-me a um fio de cabelo encaracolado. Reduzir-me.
Arranham-me a garganta todas as palavras que se acumulam rente aos lábios. Não sei quais são, não lhes conheço o nome. E as imagens na cabeça em metástases pelo corpo.
Os olhos são de tinta preta, turvos como o frio pela manhã. Aumentam a cada ruído novo, a cada golpe fora do tempo. Encolhem no bocejo fraco de quem tem fome de algo mais. Sim. Os olhos também sabem se defender. Artes que se aprendem com o tempo. Artes que se aprendem quando não temos um corpo para abraçar.
Tenho a máscara a estalar. As feridas já sangram sem dor e sem uma única gota de água salgada.
Antes fosse tudo mais fácil. Antes adormecesse com o meu nome sussurado nos ouvidos.
18 Dezembro 2007 : 01.55

4 comentários:

nana disse...

ah???
expandir sabe melhor que reduzir!!
também a frequência de visitas aqui é superior aos comentários!!
;)
Boas Festas!

Fifa disse...

A tua forma de escrever arrepia-me...és profundo de mais na simplicidade que encontraste! adoro *

Anónimo disse...

"Antes fosse tudo mais fácil."
Sim. Quem dera que todas estas sombras se dissipassem com um só grito, com uma só lágrima.
Porquê? Porquê que somos tantas vezes forçados a viver neste mundo sofucante onde só existimos nós e elas, as sombras.
Quando vivemos acompanhados por sombras da saudade é como se o vento trouxesse aquilo que queremos esquecer, é como se todos os nossos abrigos passassem a ser sítios errados, porque moram lá recordações. É como se as manhãs e as noites se tornassem ainda mais frias. É como se aquele chão pelo qual sempre caminhamos, aquela mão que sempre nos levou pelo caminho mais correcto, aquela estrela que só com uma pequena luz indicava o caminho certo, é como se tudo isto deixasse de existir.

jeanny disse...

"artes que se aprendem quando nao temos um corpo para abraçar."
verdadeiro.gostei imenso.