segunda-feira, 14 de junho de 2010

Dissolvo-me em arrepios. Abro os olhos e deixo-as sair. Hoje não dá para dizer que não. Se ao menos soubesse como desatar os nós que fui fazendo ao coração. Se ao menos permitisse alguém de o fazer por mim. Sinto as vontades novamente a aflorar à pele, em gritos aguçados de raiva. E eu deixo que me comandem, numa submissão absurda à minha racionalidade.
Hoje não dá para dizer que não. As fotografias corroem-me as pálpebras em memórias demasiado pesadas para partilhar só com a minha cama. Por isso deslaço-me de mim mesmo, para me atar da mesma forma antes que alguém perceba.
14 Junho 2010 : 19.51

terça-feira, 8 de junho de 2010

Poesia vespertina.

apetece-me fumar
fumar excessivamente
e afundar os meus pulmões
em secreções e fumos espessos
apetece-me alastrar epidemias pelo corpo
e deixar o cansaço escorrer até aos pés
abrir fendas profundas
nos olhos
e perder a orientação do real
hoje o dia está em sintonia comigo
ou então fui eu que me sintonizei com ele
aborrece-me a monotonia das rotinas
ao menos que chova
de vez
dói-me
a cabeça
8 Junho 2010 : 17.25

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Em rotação.

A terra gira em torno do seu eixo a uma velocidade aproximada de 465 m/s e nós não sentimos nada. Será que nós também rodamos sobre nós próprios e só percebemos isso mais tarde?
20 Maio 2010 : 01.48

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Não merece título.

Não há luzes. E por mais que seja a vontade, deixo sempre que me escureçam os olhos. Fico preto e fechado. Condenso-me. Altero os sentidos e deixo-os aguçados. E sinto mais, numa pureza pegajosa de quem esperou por esta vez. Não quis que acontecesse. Aconteceu.
Espero que o corpo volte a mim. Ou que eu desça sobre o meu corpo.
5 Maio 2010 : 07.33

sábado, 3 de abril de 2010

Não és homem, não és nada, se saltares.
Saltei !
3 Abril 2010 : 18.57

Outras astronomias.

Dentro de nós existem outros sistemas solares muito mais complexos que o que conhecemos. Têm vários centros de gravidade e a sua normalidade baseia-se no caos. Os corpos celestes são atraídos por inúmeras forças e alguns chegam mesmo a colidir ou rebentarem. No entanto, há sempre uma poeira, vestígio de algo que foi e que não deixa de o ser, que interfere na mesma com a função de todas as coisas, por mais microscópico que seja o seu tamanho. Habituamo-nos a reconhecer apenas o que é visível e nos tapa a visão e não percebemos o impacto de todos esses restos de ideias, projectos inacabados e coisas e coisinhas que vamos acumulando num cantinho escondido da nossa cabeça até se manifestarem no seu esplendor em magníficas auroras boreais que nos encantam. Lentificam-nos as vontades ao ponto de não existirem e passamos a ser frios (mais frios que qualquer vento roxo ou cigarro por acender). Deixamos de ter estrelas nos olhos e outras explosões cósmicas que nos incendeiam os dias e mergulhamos no buraco negro das rotinas, que nos fazem derivar num espaço anti-gravitacional onde acreditamos não ter outro destino que não o fim.
A verdade é que ainda não existe nenhum caminho marítmo para a Lua, mas não foi isso que nos impediu de lá chegar.
3 Abril 2010 : 06.34

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Latência.

Os sonhos marcam-me a carne com o vício. E por dentro das pálpebras, escondo as tatuagens de sangue das minhas vontades que não me deixam parar de sonhar.

1 Abril 2010 : 04.14

segunda-feira, 29 de março de 2010

E a cada dia que passa sinto-te a crescer, como um bolor que infesta os cantos das casas por habitar. Chegas-me aos dedos em forma de pequenos choques eléctricos, resposta de sinapses confusas na minha cabeça, mas ainda não te consigo explicar. No peito tenho o peso de saber que existes, mesmo antes de teres nascido, e a vontade que te fecundou.
Hoje é mais uma noite que me secas o corpo de lucidez e a boca de palavras.

29 Março 2010 : 02.46

domingo, 13 de dezembro de 2009

As pessoas são dois olhos e uma boca.

As pessoas são dois olhos e uma boca. Duas armas biologicamente indissociáveis. As pernas servem para abrir o caminho, enquanto os pés se adaptam ao melhor terreno. Os braços aproximam os troncos. As mãos prendem-se nos relevos e diferenças da pele. Avaliam-na. E a cabeça perde-se em sinónimos e correlações até estoirar em vontades primitivas de querer um refúgio. Mais uma vez.

13 Dezembro 2009 : 06.52

sábado, 5 de dezembro de 2009

À noite, as borboletas sofrem outra mutação, uma metamorfose atrasada, como os dentos do siso, apenas uma opção genética mal explicada. Escurecem a pele e deixam-na secar. E tatuam nas asas mensagens microscopicamente indecifráveis, que apenas os da sua espécie, também metamorfoseados, compreendem em total sintonia.
Parecem folhas molhadas na chuva, solitárias, como predadores à espera do momento ideal. E atacam. Absorvem toda a luminosidade possível para contrariar a sua natureza obscura.
São vigilantes de uma noite melhor. Tecem, junto com as aranhas, enredos e armadilhas, para que a sua presença seja mais do que uma gota de luz incandescente. São viciantes pelo veneno que segregam. Acidificam-nos os fluídos que expandem no momento da sublimação. Arrancam-nos os sentidos e apuram-nos os instintos.
As borboletas são caçadoras de uma verdade mais pura, e mentem em cada vôo silencioso.


5 Dezembro 09 : 07.58