segunda-feira, 30 de junho de 2014

se me fizeres três furos no peito
prometo que sangro mais rápido
os segredos que tenho por dentro
e verás que as minhas cores são diferentes
agora
já não interessa como se escreve
o meu nome
o verdadeiro nome que inicia a noite
num grito
num gemido a tremer
nos meus lábios.

e só depois o sol
e a sua coroa de som
a dilatar-me o corpo
a expandi-lo para além do tamanho
que procura encaixar sempre
no abraço mais perfurante
e sobreviver a ti.

28 Junho 2014 : 00.16

sábado, 21 de junho de 2014

imagina
um caminho de microperfuraçõezinhas
para dentro de ti
mais dentro que isso
a deixar infiltrar
invisíveis perfumes quase-orgânicos 
que vêm diluir-se entre as coxas
tão brilhantes
no tom mais salgado do suor do começo do verão

sentes?
esse marulhar a escorrer-te às mãos
em tsunamis de vontades?
a abrir-te o peito
mais do que a ti
em consecutivas convulsões
a fazer-te crescer
água na boca
e esperma nos pés

deixa
deixa-te aquecer
que é esse o calor
que dá o sabor à pele
e deixa-me encostar a ti
bem encostadinho a ti
até saber de cor todos os teus cheiros.


21 Junho 2014 : 22.30

terça-feira, 3 de junho de 2014

dois anjos em colisão
desasados pelo azar
de se amarem pralém da razão
de ebulirem o gostar

não é isto mais que suficiente
que o segredo apertado ao ouvido
da vontade de toda a gente
a estilhaçar num grito partido

só quero mais um ou dois murros no peito
mas são três os desejos por pedir
com cinco dedos faço um traço sem jeito
mas tenho a certeza que é o caminho a seguir.

4 Junho 2014 : 00.34

rebentou-me uma artéria mais túrgida
prontinha para estoirar-me na cabeça
e inundar-me a boca do teu sabor
tan dolç
a começar uma verdadeira batalha épica
que se estende do peito às mãos
con ganas de abraçarte
i ser teu

que delírio é este
tão forte e físico e sóbrio
tão real?
quem és tu, afinal?
a virar em cada esquina dos meus olhos
a encher-me o corpo de promessas
também à espera de rebentarem
em orgásmicas viagens de mota
onde somos um só capecete
com barcelona a passar e a rasgar-me o céu
pelo céu adentro

e só deixo escapar um suspiro
apenas um e cheio de vontade
a prometer-te também 
com m'agrada la Ciutat i Tu.

2 Junho 2014 : 18.28

Desierto.

constelações rodoviárias
galáxias e galáxias delas
todas alinhadas
horizontalmente
em explosões reflectoras
e néons frios e baratos
a acetinar
a noite estranha
pela entranha do deserto
ainda a cheirar a erva aquecida
e a calor

e, de vez em quando,
muito de vez em quando,
uma fibrina de neblina
como uma colmeia de algodão
a repousar
baixinho
e a abafar o silêncio
do vôo nocturno dos insectos
e dos sonhos da gente
que desperta
sem acordar
no segundo mais doce
antes mesmo de amargar.

27 Maio 2014 : 01.58

quarta-feira, 14 de maio de 2014

ensaio sobre uma vidinha normal

ora
não queria eu outra coisa
era só isso
isso e pronto
estava mais que satisfeito
estava mesmo mais-que-satisfeito
que é o auge de ser normal
é o nirvana do ser normal
estar satisfeito
um pouquinho para o estar excelente
mas isso nem interessa
e é herege quem se atreve a dizê-lo
olha, olha
a querer por em causa toda a estabilidade
do sofá todo equipado
de conforto inigualável
aliás
do conforto em hipérbole
a convidar a toda a hora
por mais um carinho rente ao pescoço
enquanto se vê a novela pós-jantar
ou a bola
nos dias em que ele,
o sofá,
assume o comando
e me adormece entre os seus braços
de sofá
os seus, portanto.

ter uma vida normal
ter uma vidinha normal
ter uma filhinha da puta de vidinha normal
pronto.
era isso e saberia que era feliz
bastava-me compartimentar a minha garagem do dia
em pequenininhas divisórias
que se encaixavam numa máquina
que só rodava
rodava e rodava e rodava e rodava
rodava e
não parava de rodar
a mostrar casinha por casinha
acordar
tomar banho
conduzir nas infernais manhãs lisboetas
trabalhar trabalhar trabalhar trabalhar
e
voltar a conduzir nos bestiais pôres-do-sol lisboetas
e chegar a casa
casar com ela
nunca mais a largar
nem trair
nem desdenhar do cotão que acumula nos cantos
só querer entrar nela
e ficar lá mais um bocadinho
a aproveitar o quentinho
de estar aconchegadinho
hmmm
e o seu cheiro
a caramelizar-se nos meus seios
nasais
a dar-me vontade e dar-me
mais vontade
de lamber o
delicioso jantar
a aquecer no forno
só dois minutitos.

pra quê pensar noutras coisas
fica quietinho
sossega
chiu
Calou!
lindo.
era só isso que eu queria mesmo.
e depois morrer de tédio
Três segundos à frente.

amén.
14 Maio 2014 : 20.47

quinta-feira, 1 de maio de 2014

um estrangeiro completamente perdido e duas malas, nas suas mãos, a pesarem para além da incerteza. um olhar rápido, a escorregar-lhe pelo canto do olho, na esperança de encontrar uma referência. mas o casario é fechado, por mais acolhedor que seja, é uno, e condensa as histórias em pequeninas partículas por debaixo das pedras da rua. é um labirinto de casas a brotar como dentes, a desenharem sombras maciças e verdadeiramente opacas, que limitam o atrevimento das clareiras de luz que vão dançando até ao último brilho da tarde. até a noite passa por aqui mais devagar, a deixar segredos e romances no anteceder do perfume da manhã. todas as paredes falam dos que abrigam, enquanto os telhados se deitam a molengar ao sol, de barriga para o ar, a deixar escorrer o calor todo pelos becos, verdadeiros afluentes desafogados a inebriar qualquer um que lhes desafie a corrente.
e, de repente, o silêncio após o sussurro mais doce das laranjeiras, a pesar, a pesar, e a prometer encher-lhe o peito de promessas. até as janelas, ansiosas, abriram mais um pouquinho a cortina à espera de uma decisão. eram pra lá de mil, ao todo. nem um pousar de pratos, nem uma gargalhada ou uma chave a entrar na porta. apenas o silêncio a dar gosto ao beijo de Alfama. 
o estrangeiro ainda lhe sorriu, rendido a todo o convite para entrar, mas foi embora. o parvo. que não queria arranjar confusões com a namorada. nestas férias não ia mesmo fazer merda. não estava para paixonetas.
30 Abril 2014 : 21.38

pré-soneto.

Rebentou-me a caneta das fantasias eróticas no sofá e o seu cheiro a azul-petróleo ainda trazia o calor do asfalto nas sapatilhas. Vrum, vrum! nas descidas aceleradas, a agarrar-me apenas à imprevisão do abuso do uso do caminho e a ti, que és a robustez acima do capacete. E a Lua a passar-me ao lado e a desaparecer no início do piscar dos olhos.
8 Abril 2014 : 13.12

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Os dias têm sido desérticos, o que em nada altera a sua propriedade viscosa, natural de todos os dias. Facilmente se percebe porquê: nunca nos desprendemos totalmente do que foi ontem, como se o ontem quisesse sempre ficar mais um bocadinho, ficar mais uns dias, uma semanita, a ser hoje. Os dias também são teimosos, a insistir no persistir.
Mas falava eu do quão solitários têm eles sido, os dias, como uma penitência épica ao epicentro da consciência. Entedia-me toda a repetição do nada-de-novo-porque-não-há-mais-nada-de-novo. E de vez em quando, só uma aragem, com o cheiro delicioso a novo, a prometido. E nesse momento formam-se, na cabeça, âncoras de certeza a enferrujar o corpo da vontade com um só clarão. Porque esta ferrugem alimenta, preenche e rebenta a qualquer momento. É isso! Os dias também têm sido granadas já sem gatilho, a eminente implosão.
Evoluir desformata-nos: elimina, altera, constrói. Não nos apura os sentidos, cria-os. E todo o corpo continua a ser o mesmo, mas com outra auto-percepção. Deixa de ser crença e passa a ser a doença. Vicia-nos na introspecção auto-infligida. Muta-nos, para além de toda a treta genética. E faz dos dias apenas o tempo que leva a sua embrionagem. A aproximação e o compasso de espera que isso tem. Ver de perto, ser mais perto, ao ponto de só ser, unicamente. Ser o ponto do ponto final, indivisível. Ser absoluto como um calhau da rua, a abrir o sobrolho no primeiro arremesso. Reagir e criar ligações mais-que-químicas, a unir os nossos pontos de fuga para uma nova direcção.

17 Abril 2014 : 20.54

domingo, 13 de abril de 2014

D.

o som
a dar início à brevidade da despedida
um último beijo pela janela
no esforço do sorriso de quem já tem saudades
e os teus olhos
tão pequeninos como tu
a perceberem que amanhã não me vais ver
que não me vais acordar
nem te vou poder agarrar para dormir mais um bocadinho
só mais um bocadinho
contigo

deixo-te para trás
e assumo o caminho da viagem
a acelerar a velocidade
e todo o comboio desliza
flutua fora do trilho
e das engrenagens saltam faíscas e ruídos
que semeiam a terra
com flores a rebentar de amarelo azul e vermelho
tudo pelo teu nome
e até as montanhas decidem imitar o Mar
um mar verde e húmido
a lembrar-me o teu cabelo quando está comprido demais

e correm os cavalos
e as casas montadas neles
e as fábricas não se mexem por serem teimosas
e pesadas
com altas chaminés preguiçosas
sem um único bocejo fumarento
não há pessoas nem gente
escondem-se à passagem deste comboio fictício
que a maravilha de o ver passar é mais sagrada que as suas crenças

- porque vais tão rápido e desamparado?
iluminou-me o sol
quase quase coberto pela paisagem lá longe
quase quase junto do horizonte
e ficou-se o silêncio
entalado entre a Lua e os pinhais
por não querer falar sobre isso
que é pior do que saber a resposta

é que na extensa horizontalidade da distância
em que os quilómetros são contados em dias
deixo de te ver
a crescer milimetricamente todas as horas
a mudar os dentes
a aprender novas palavras e novos movimentos
mas nunca,
e este nunca é absoluto para além da morte,
me esqueço que és meu
e que partilhamos as virtudes do mesmo sangue
e o calor visceral da família que nos acolhe
e o amor em consecutivas explosões
de tão violento e orgânico

somos feitos da mesma matéria
por isso também sou teu
e tu és meu
sempre.


13 Abril 2014 : 20.50