segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Confissão.


Relíquias de ouro incandescente que gravam marcas nos lábios. A pele estala a cada raio de sol e os olhos verdes de sono não me deixam ver as minhas cores. Uma noite após a anterior, num eco que se repete nas circunvoluções da minha cabeça. Os arranhões de todas as mãos.
Deito-me na cama, uma qualquer, e deixo-me arrefecer ao ritmo dos lençóis. O meu corpo funde-se com o colchão numa simbiose quase metamórfica. Deixo-me ser levado pelos olhos de alguém, numa entrega apenas aparente onde me arrancam as dores do peito. Movimentos tão vermelhos numa troca de saliva de mil e uma cores, drogas que só eu sei preparar. O sangue borbulha em vodka e outros alcoóis depressores. Não resisto, e sem dar conta tenho um corpo para escravizar à minha vontade.
Uma mão dentro das calças, outra a segurar a cabeça. Mais uma a tocar-me nos lábios e uma língua a descer até ao umbigo. Arrepios em cadeia que me transformam num predador instintivo. Mordo. Sabe bem morder a carne, furá-la com os dentes, saber de que é feito o sangue.
Às vezes ainda há tempo para uma confissão ou duas, num sussuro apertado ao ouvido. Esperança que a noite saiba melhor. Esperança que o dia comece melhor.
O orgasmo. Gritos e contrações de corpos uns contra os outros. O fim e as dores no peito voltam a aparecer.

6 Agosto 2007 : 19.20

sábado, 4 de agosto de 2007

R.E.S.S.A.C.A.

Ressaca é o resultado de...


beber muito
aceitar bebidas
fumar
fumar
fumar outra vez
dançar ao ritmo da música
dançar fora do ritmo
berrar
rir
cair algumas vezes
dar uma queca no quarto de banho do bar
vomitar a seguir
adormecer no chão do quarto de banho de casa.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Pornografia mental.

Sanidade ou Insanidade. Cada um toma o que quer. No meio de um mundo agitado ainda há espaço para merecermos escolher? Não podemos fazê-lo parar nem abrandar o ponteiro dos segundos e é mentira quem diz que nem tudo tem um fim. Tudo tem um fim, por mais longo que seja o começo.
Sinais de trânsito, paragens de autocarro, areia, um farol aceso e mar. Mexer bem, tudo junto num caldeirão, grande útero estéril onde a esperança é a única vida que resta. Esperança? Que se foda a esperança. Os olhos estão gastos de esperar e a boca rasgada de sorrisos. Ainda há tempo?
Não há pássaros no céu e os que restam escondem-se do sol. Gritam alto para se ouvir melhor o que nunca souberam dizer. Vigiam-me quando me encolho no teu peito, quente, para me sentir grande quando não te consigo ver. Sinto-te o coração junto à cara e a vontade de te morder aumenta a cada pulsação. Canibalismo inexplicado que me enche o corpo de arrepios.
Não sei mais em que acreditar. Sinto os meus pés a andar ao contrário e tenho vinte mil unhas cravadas nas costas. Asas fictícias a rebentar de vermelho. A luxúria sempre ficou bem como meu segundo nome.
Mais um copo e outro cigarro. Fumo alcoólico para cuspir toda a dúvida. Hã?
Evolução, dizem eles. Evoluir é o nosso objectivo, numa sociedade obesa de preconceitos e esterótipos não santificados. Seja feita a vontade de quem pode e os que não podem falar que se calem para sempre. Amén. Irritam-me todos aqueles cumprimentos e burocracias ridículas. Aperto de mão fica sempre bem na TV. Abaixo à inteligência e ao sentido de oportunidade. Viva a todas as Floribellas e Chiquititas e o raio que as parta. Vamos encher as novas gerações de mentiras tão gastas que nem eles vão conseguir perceber.
Pinças metálicas e parafusos esterilizados. Novos pedaços para um corpo melhor. A construção de alguém que há-de vir, numa crença folclórica ao estilo de D. Sebastião. Ao menos que seja alguém bem feito, sempre tem mais credibilidade.
Odeio estas dores de cabeça. Vou dormir que o meu mal é sono. Fim. Aleluia, Aleluia.

11 Julho 2007 : 06.07

quinta-feira, 5 de julho de 2007









"Eis a foto que só eu poderia tirar. Sorri. Este é o teu melhor retrato."

domingo, 24 de junho de 2007

Fim.

Fim. Mais uma vez. Prometo tentar não me imaginar mais na tua cama, numa preguiça exagerada como quem pede carícias ao amanhecer antecipado. Prometo tentar não me entregar de novo nos teus braços, parapeito da minha cabeça, numa janela para o ritmo acelerado do teu coração. Prometo tentar não te seguir o rasto de perfume entre lágrimas de chuva. Prometo tentar não cuidar mais de ti, como um pai improvisado na pele de namorado. Prometo tentar não me afogar mais nas tintas dos teus desenhos. Prometo tentar não te guardar mais o olhar em fotografias espontâneas. Prometo tentar não encher o teu quarto de raios iluminados pelo fumo de um cigarro a dois. Prometo não tentar mais.

Arranha-me a vontade de entrar no metro e seguir o destino já automático. Já nem as chaves tenho para entrar. Por isso resta-me deixar que ela se apague, como lâmpada que funde, lentamente, até que a sua luz seja consumida. E haverá réstias de brilho depois disso?
Gritei-te insultos em resposta das incopatibilidades e deixei-te ali sozinho, como eu. Não tive mais vontade de te olhar nos olhos verdes porque as mentiras eram mais que as verdades. E não chorei nessa noite. "Cresce" disseste-me uma vez, como contra-argumento sem sentido de resposta possivel, e agora penso que és tu que precisas desse meu conselho. A idade já não conta hoje em dia, entre tanta gente desprovida de qualquer capacidade de amar.
Desta vez não tomo qualquer tipo de narcótico para me ajudar a dissolver as memórias. Espero que ao escrever consiga dividir o peso no peito e que o teu sabor desapareça da minha boca. Também sinto o salgado agora e sei que os olhos estão molhados. Acontecimentos inevitáveis de quem se separa.
Acabei por não te encontrar no fim do labirinto. As paredes eram em forma de dúvidas cortantes que surgiam sempre que me tentavas aproximar de ti. No entanto, senti os momentos de entrega e escrevi-os no mapa que fui desenhando. Sei que os vou guardar como lembrança de momentos felizes.
Caímos, os dois, e só temos que aguardar pela força que nos vai levantar. Quando chegar o momento de nos partilharmos com alguém vamos ser memórias guardadas num sitio especial. Pelo menos é o que me cantam aos ouvidos, numa melodia vibrante em forma de piano. Espero que seja verdadeiro o prenúncio de um recomeço de dia em que o sol será de novo bem-vindo. É engraçado que nunca aprendemos com as experiências anteriores relativas à partilha de sentimentos.
Gostei de ti e ainda gosto, é o que me prova agora o que digo a mim próprio, mas sei que se houvesse uma outra oportunidade só servia mais uma vez para adiar o fim. Por isso espero que, pelo menos, os nossos olhos se voltem a cruzar por aí e não se desviem. Que haja um cumprimento sentido e uma vontade de ficar presente na vida um do outro.
Até lá despeço-me de vez: adeus.
25 Junho 2007 : 01.33

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Segredos.

Os olhos reviram no novo acordar. Queima-me a retina toda a violência das cores abrasivas e o fumo reaparece logo a seguir, em tons acromáticos de quem não deixa perceber quem é. As memórias não sabem como diluir e os seus cheiros ficam retidos em tons mediterranicos.
Ai sol, que me escureces a pele, ilumina-me as verdades que não me querem revelar. Queima-me as fotografias e mostra-me os segredos. Deixa-me encontrar as duas chaves que me faltam para sair deste labirinto de silêncios mal explicados que me ardem em feridas abertas. Solta-me o nó na garganta.
Deixo os olhos condensar agora, na tentativa de saber mas do que sei. Revejo as mensagens que me deixam para encontrar qualquer vestígio do que perdi. Sonho de crescer para além das árvores, que não enraizam quando devem. E corro no teu encontro, com sorrisos e abraços programados, na esperança de serem tão reais os que recebo.
Os lábios sabem-me a outros perfumes e sangue de quem se esforçou a lavá-los. Encontro marcas demais na tua pele e penso que nunca as tinha visto. Dou por mim em becos sem saída com mil e uma portas de oportunidade e decido entrar em todas ao mesmo tempo, fugir, para não pensar mais.
Caiem-me alfinetes no peito e eu deixo que escorram até aos pés. Aguento-me em pedra firme sem medo de cair. Mudei tanto.
Por fim, há-de vir uma gota de fluído incandescente para me oxidar a vontade. E, no entanto, és tudo aquilo que quero por agora.

11 Junho 2007 : 04.02

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Não os deixes fechar.


Fechei os ouvidos para te poder sentir quando chegasses, mas os olhos cairam em colapso brutal. Fecharam cansados de imaginar demais.
Ainda me dói o peito dos arranhões que deixaste. E a cabeça arde de tudo aquilo que dissemos. Venenos que nos queimaram por dentro, num turbilhão de luzes incandescentes, em berros de silêncios não explicados. Doeu. Eu sei que doeu.
Deixei-me cair, sem querer, e sonhei com reflexos que não são os teus, em espelhos que quis partir. Arrependo-me e peço-te ajuda para a afastares. Não a deixes ficar, com os seus encantos de opióides ácidos que me corroem a vontade. Chama-me pelo lado racional e apaga-me as miragens das pálpebras, que se escondem quando acordo. Não a quero por perto. Não quero.
Já nem sinto as mesmas saudades. Quero outra vez os comboios e as viagens sem regresso, as praias a rebentar de azul e os quartos escuros perfurados pela luz dos candeeiros. Quero repetir, mas há cansaço a mais em mim. E a vontade está inerte, numa ataraxia mentirosa. Sintomas do início.
Abana-me e desenha-me de novo. Quero-te sentir o cheiro e mexer-te no cabelo molhado. Quero-me afundar nos teus olhos e encostar no teu abraço. Deixa-me dormir mais uma vez contigo. E outra e outra vez, numa reconquista ainda por começar.
Não repitas os momentos azedos, nem te cales em dúvidas que não são verdade. Abre-me os olhos, porque da próxima vez, o silêncio pode fechá-los de vez.

30 Abril 2007 : 04.26

sábado, 7 de abril de 2007

Poço.

E se o cosmos se concentrasse na mesma varanda em que eu o admiro? Rodopiando sobre mil e uma estrelas descobertas de céu? Seria alucinação pertinente para merecer um beijo teu? Talvez encontrasse alguma certeza misturada no brilho verde da tua solidão, sonho premonitório de noites e dias de luz. Eu gostava de acordar todos os dias com um beijo na testa e dizer-te 'até logo' até voltares. Sonhas o mesmo que eu? Ou julgas que são feitas de metonímias todas as palavras que já te disse? Deixa-me beber-te mais um pouco, numa taça de vinho azedo para te sentir melhor o sabor. Quero sentir a acidez do teu toque no amanhecer lento de todos os dias e poder repetir sem parar o vício que já me possuiu. Arranha-me as costas para me dizeres que ainda cá estás, mas não me vejas chorar quando acordo sem ti. Não te prendas em fumos estranhos de cores por inventar porque esses encantos levam-te para mais longe de mim. Quero que voltes a sussurar-me ao ouvido e que grites por mais abraços. Loucura. Loucura. Loucura! Sentido impróprio de gostar da tua presença, mesmo que não haja qualquer lençol sobre nós. Mais um. Outro cigarro dos teus, de trago macio que não me deixa mais dormir, como sol alaranjado nas tardes de outono tardio. Abraço-te e não te deixo cair, e se caires voamos os dois para um poço redondo onde o fundo é feito do compromisso que assumimos os dois.

21 Março 2007 : 16.12

segunda-feira, 19 de março de 2007

Voei.

Voei. Abri as minhas asas de cabelos pretos e voei. Dei corda ao relógio de bolso e ouvi o coração bater.

Está frio e a chuva faz-me tremer, medo inseguro de não aguentar o peso da água. Já não há sol no céu e a lua não se mostra hoje. Eclipse misterioso de um recomeço secreto. As nuvens são o meu caminho porque nem o vento ou as estrelas me querem falar. E os candeeiros são lembranças de um tempo de luz.
Deixei-me viciar, necessidade orgânica que agora me mantém de pé. Selei a minha promessa em palavras para não pestanejar quando te olhar de novo, quando houver um novo olhar. Desculpa que encontrei em cartas que não te escrevi. Coragem que me faltou. Vontade que escondi.
Peço-te que me escrevas quando tiveres certeza da tua morada. Oito mil setecentas e sessenta horas é tempo demais e o relógio ainda mal começou. Não te prendas em amarras de seda mesmo que sejam macias as histórias nos teus pulsos. Corre para longe mas decora cada pôr-do-sol.
Acabei por encontrar um novo ninho de olhos verdes. Cheguei a casa e não és tu que me esperas com um beijo nos lábios.
19 Março 2007 : 05.36

domingo, 4 de março de 2007

O Baile.

Botas pretas. O salão feito de música.
Gentes. Penteados de outras cores.
O fato.
Vermelho. Branco. Vermelho. Vermelho. Roxo. Nunvens estáticas.
O laser que nos varre.
O fumo essencial ao bem estar hilariante.
Quedas agressivas. Prenúncios mentirosos. Fusão de corpos iguais.
A dança.
Olhares encantados.
Conversas. Muitas conversas. Teias de conversas. E gritos.
Sonhos de lembrança. Caras escondidas. Orgasmo de vertigens.
Violência ácida na minha boca.
Tremores viciantes.
O corredor. Nó vermelho da gravata. Casaco escuro.
Dia.

RESUMO DA NOITE: Um ser aparece-me à frente e dá-me 2 bilhetes para o Baile dos Vampiros quando eu ia comprar o meu. Lá dentro, bebo uma cerveja sem pagar e ainda parto um banco para condizer com o cenário do meu traje.
4 Março 2007 : 20.56